O Smart Grid na América Latina

 

 

 

A impressionante velocidade com que se popularizou o conceito de redes inteligentes de energia ou smart grids está trazendo a teoria para a prática antes do que se esperava. Principalmente em razão das questões climáticas, a instalação de redes inteligentes avançou de forma significativa na lista de prioridades dos governos.

 

  Na Europa, a motivação foi a busca da eficiência no uso final de energia, com a implementação de geração renovável em pequena escala, de forma a atender as metas de reduções de emissões de gás carbônico.

 

  Nos Estados Unidos, o presidente Barack Obama concedeu U$ 4,5 bilhões para projetos de smart grid dentro do pacote de recuperação da economia, focando principalmente no gerenciamento da estrangulada infra-estrutura de transmissão e na adoção de tarifas que espelhem melhor os reais custos de fornecimento.

 

  No Brasil e nos demais países da América Latina, o uso da eletricidade per capita ainda precisa se desenvolver muito. Se comparado aos padrões norte-americanos e europeus, o consumo por aqui pode ser considerado mínimo: cada pessoa na América Latina gasta, em média, 7,6 vezes menos do que na América do Norte e 3,25 menos do que na Europa. Por esse motivo, os governos latino-americanos vinham concentrando seus esforços na expansão da oferta de energia, mais do que na busca de eficiência do uso final e no combate ao desperdício.

 

  Mas essa realidade também vem se transformado. Em 2009, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) deu três passos importantes em direção à modernização da infra-estrutura de eletricidade: a consulta pública sobre medição eletrônica, a regulamentação do uso do PLC (comunicação pela rede elétrica) e a publicação, em consulta pública, da primeira parte de um estudo de aprimoramento da metodologia de tarifas de eletricidade no país.

 

  A consulta pública sobre medição eletrônica objetivou colher subsídios dos agentes para definir regulação a respeito da substituição de medidores em baixa tensão por medidores eletrônicos. Nova regulamentação sobre o tema, que envolve a troca de 63 milhões de medidores, deve ser publicada ainda no primeiro semestre de 2010. A consulta sobre a alteração metodológica da estrutura tarifária mostra que a Aneel pretende definir até 2011, tarifas mais complexas e aderentes aos custos de fornecimento para os consumidores de baixa tensão. Finalmente, a regulação do uso da tecnologia PLC - Power Line Communications definiu regras para a transmissão de dados por meio da rede de distribuição, especificando que a receita com oferta de serviço de PLC deve ser revertida à modicidade tarifária.

 

  Além desses passos do regulador brasileiro, o blecaute de dimensões gigantescas que ocorreu dia 10 de novembro de 2009 questionou a qualidade do setor elétrico brasileiro. De uma hora para outra, a sociedade percebeu que praticamente todas as atividades cotidianas estão vinculadas de forma inseparável ao uso de eletricidade. O blecaute promoveu a mobilização da classe política e do Congresso Nacional, onde ocorreram muitas discussões sobre como aumentar a segurança do sistema elétrico nacional e garantir tarifas acessíveis. Também cresceu a conscientização da urgente necessidade de construção de um programa nacional sobre essas tecnologias, adaptadas às realidades locais, criando incentivos à comunidade científica e empresarial para atender à demanda regional e global que deverá surgir nos próximos anos. A importância da atuação do Estado, portanto, não se limita a criar as condições de renovação do parque de energia, promovendo incentivos de desenvolvimento, financiamento e fomento aos projetos, mas principalmente na definição de políticas claras de incentivos à inovação e à regulamentação nessas áreas tecnológicas.

 

  Tudo isso é imprescindível para que os riscos de novos blecautes sejam afastados, no atual momento econômico vivido pelo Brasil e na realização de eventos como a Copa do Mundo de Futebol em 2014 e as Olimpíadas, em 2016, onde a infra-estrutura terá papel decisivo.

 

  Por todos esses motivos, da mesma forma que na Europa e na América do Norte, várias distribuidoras brasileiras passaram do discurso à prática e já anunciaram significativos investimentos e projetos de smart grid.

 

  A Cemig, concessionária do Estado de Minas Gerais, anunciou, no mês de dezembro de 2009, o projeto “Cidade do Futuro”. O programa será implantado em Sete Lagoas, cidade localizada a 70 quilômetros da capital mineira, com mais de 80 mil consumidores e população superior a 200 mil habitantes.

 

  Já a Light, que atua na cidade do Rio de Janeiro, avança no uso de medidores digitais. Com uma perda total de 21%, dos quais 15 pontos porcentuais se referem a perdas comerciais, a companhia, em locais de alto poder aquisitivo, optou por instalar medidores digitais individuais nas unidades consumidoras, alcançando 40 mil clientes. Com isso, foi possível reduzir as perdas totais desses consumidores de 25% para 9%. Até o momento, a companhia instalou 40 mil medidores digitais nessas localidades e pretender instalar mais 120 mil em 2010. Nos três anos seguintes, serão outros 100 mil por ano. O objetivo é reduzir as perdas totais de 40% para 5% nessas regiões.

 

  A Eletrobrás, por sua vez, anunciou investimentos da ordem de U$ 700 milhões em automação de processos operacionais e comerciais nas seis distribuidoras do grupo. Nesses casos, o foco também será na recuperação de perdas de energia, com a implantação de centro de controle de medição. Além disso, serão instalados 420 mil medidores da nova geração. A nova tecnologia alcançará todos os 9 mil clientes de média tensão, 115 mil clientes da baixa tensão e 29 mil clientes de condomínios. O projeto prevê também a substituição de medidores obsoletos de 300 mil clientes e a regularização de 265 mil ligações. Além disso, o programa terá a blindagem da rede e a automação de 780 alimentadores em média tensão.

 

  A Ampla, que atua no interior do estado do Rio de Janeiro, foi a empresa pioneira no uso de medidores digitais no Brasil em larga escala. Entre 2003 e 2009, estes equipamentos foram empregado em 300 mil unidades consumidoras (12% dos clientes), com redução de perdas de 25% para 20%. Apesar dos benefícios, o impacto da regularização não foi bem digerido por alguns consumidores, que alegaram cobrança indevida, o que acabou por mobilizar a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro contra a medição eletrônica centralizada, pois os equipamentos na ocasião ainda tinham a homologação pendente. Com a homologação definitiva do Inmetro em julho de 2009, a Ampla retomou os planos de instalar os medidores digitais em sua área de concessão. Para 2010, a meta é instalar 50 mil unidades.

 

  Representantes de outras empresas importantes, entre as quais a CPFL, a Copel, a Bandeirante Energia e a AES Eletropaulo concederam recentemente entrevistas à imprensa que estão estudando projetos de demonstração em maior escala para testar as novas tecnologias.

 

  As empresas de tecnologia e os centros de pesquisa estão se mobilizando para redirecionar seus programas de investimentos e de pesquisa de forma a atender às novas demandas: todos eles possuem produtos ou projetos de smart grid e a capacitação de pessoal avança com grande interesse e velocidade. Uma mostra disso é o surgimento de um grande número de empresas de base tecnológica e a criação de novos produtos visando atender ao novo mercado.

 

  O evento de 2010 está estruturado para atender a este momento e facilitar o avanço da implementação dessas tecnologias no Brasil e América Latina.

 

Bem-vindos ao SMART GRID FORUM/2010!

 

 

 

 

Cyro Vicente Boccuzzi

Presidente

 

Julio M. Rodrigues

CEO